As casas de apostas parecem estar a sofrer de amnésia seletiva, ou então deixaram-se encandear pelas recentes demonstrações de força belgas. Sim, espetaram cinco golos à Tunísia e sete ao Liechtenstein nos testes e qualificações recentes, mas convém acordar para a realidade imediata. Bater em equipas frágeis num amigável não é o mesmo que abrir a fase de grupos de um Mundial contra um bloco tático de betão armado. O mercado está a vender a imagem de uma Bélgica demolidora de volta aos tempos dourados, mas a verdadeira história do jogo não vem nas quotas desajustadas das casas. A grande bomba tática é clara: Romelu Lukaku arranca no banco de suplentes. Sem o seu principal tanque físico a empurrar os defesas centrais contrários, esta armada europeia, cheia de virtuosos e amantes do passe curto, arrisca-se a bater de frente contra um muro sem saber como entrar na grande área.
A transição venenosa dos Faraós
Do outro lado do relvado não vão estar onze rapazes que vieram passear a Seattle só pela experiência do torneio. O Egito do selecionador Hossam Hassan é uma verdadeira máquina de suar, morder calcanhares e fechar espaços de forma quase sufocante. É crucial lembrar que estes homens secaram por completo a posse e a técnica da seleção espanhola num amigável exigente, forçando um nulo arrastado com uma tenacidade invejável. Eles sabem fechar a casinha, têm um meio-campo incrivelmente combativo e não vão ter vergonha nenhuma de entregar a bola de bandeja aos adversários europeus. Vão, sim, ficar à espreita do erro, com o dedo no gatilho à espera do primeiro roubo de bola. E quem é que vai disparar do outro lado? Mohamed Salah, a estrela máxima que volta refrescada ao onze titular, muito bem acompanhado pelos piques venenosos de Omar Marmoush. Se a equipa europeia vai estar a mastigar jogo ofensivo sem um verdadeiro ponta de lança para finalizar a primeira fase, basta um passe transviado para o veneno africano se libertar em velocidade rasgante.
A fatura defensiva que ninguém quer pagar
O que torna o cenário ainda mais pantanoso para os favoritos é a sua própria retaguarda. Zeno Debast ficou de fora desta estreia e deixa uma cratera indesejada nos automatismos defensivos. A equipa belga vai ter de alinhar com uma dupla de centrais remendada e muito menos oleada, o que é o pior cartão de boas-vindas quando se tem de travar bolas lançadas no espaço. Salah não pede licença para arrancar, ele simplesmente castiga defesas mal coordenadas nas transições rápidas. Para os belgas passarem o rolo compressor, teriam de expor demasiado o campo, e isso equivale a um convite VIP para serem feridos nas costas da sua linha subida. Podem até sofrer para arrancar três pontos na pura qualidade individual de um rasgo de Kevin De Bruyne, mas uma vitória folgada e confortável não tem qualquer base na realidade deste emparelhamento. A resistência egípcia é demasiado real para a linha de mercado que nos atiram à cara.





