Acham mesmo que vamos ter um espetáculo de ritmo frenético e balizas a tremer de cinco em cinco minutos? As casas de apostas estão a olhar pura e simplesmente para a diferença de talento no papel e a ignorar de forma gritante o fator mais selvagem deste jogo: o clima de Miami. Vamos ter a temperatura a bater facilmente para lá da barreira dos trinta graus no relvado, acompanhada por uma humidade brutal e perfeitamente asfixiante. O mister Marcelo Bielsa adora meter as suas equipas a pressionar como autênticos loucos em todo o campo, mas tentem lá aplicar esse estilo frenético dentro de uma verdadeira sauna! A intensidade física da equipa vai cair a pique com o desenrolar do cronómetro, sendo praticamente impossível manter o ritmo agressivo.
Sem maestro no meio-campo não há milagres
Para agravar todo este cenário expectável, há um problema gigantesco na construção ofensiva do Uruguai. Falta o grande cérebro da equipa. Sem jogar De Arrascaeta, a tarefa de desmontar uma defesa fechada a sete chaves passa de arte refinada a puro trabalho braçal. A equipa perde imediatamente aquele passe de rutura cirúrgico, a visão de jogo que descobre espaços limpos onde eles aparentemente não existem. O que lhes sobra no onze titular? Muita força, muita entrega e alguma velocidade com Darwin Núñez, mas a tendência para um futebol mastigado e previsível fica evidente. Os recentes empates a zero em testes com a Argélia e o México provam isto sem margem para dúvidas. Contra blocos baixos, este ataque está a mostrar uma falta de criatividade gritante.
O bloco de betão armado no deserto
Do outro lado das trincheiras, a Arábia Saudita não entra em campo para dar espetáculo, chega com a lição muito bem estudada. O empate sem qualquer golo frente ao Senegal foi o ensaio geral perfeito para esta estreia. Eles souberam sofrer, fecharam os corredores e montaram uma verdadeira teia em frente à área. Os sauditas sabem perfeitamente que não podem ir para uma troca de golpes aberta; vão trancar as portas de acesso ao guarda-redes e tentar fazer o relógio sangrar. Além disso, a equipa do Médio Oriente está perfeitamente no seu habitat natural a lidar com temperaturas ardentes e suor a escorrer.
A estratégia ditada pelo cansaço
Juntem todas as peças do puzzle tático. Temos um Uruguai privado da sua varinha mágica no meio-campo e forçado a atuar num ambiente que assassina o estilo de pressão máxima característico do seu treinador. Do outro lado, uma equipa super fechada, focada em destruir jogo e sem pressa absolutamente nenhuma de atacar a profundidade. Podíamos até pensar numa aposta a favor de um resultado tangencial para os sauditas, mas ir ao mercado dos golos é o verdadeiro colete à prova de bala nesta contenda. Mesmo que a classe superior do Uruguai acabe por furar o muro numa bola pontapé de canto ou ressalto e segure um triunfo prático e aborrecido, o nosso bilhete sobrevive a tudo isso com um conforto enorme.





