O Grupo G do Mundial 2026 arranca em Inglewood com um confronto que, no papel, parece assimétrico: o Irão, com os seus jogadores experientes e rotinas de alto nível, frente a uma Nova Zelândia que regressa ao palco mundial após uma longa ausência. Mas o futebol não se joga no papel, e esta aposta olha para o que os números e o contexto realmente dizem.
Um favorito com fissuras
Comecemos pelo Irão. A seleção comandada por Ghalenoei tem, individualmente, mais qualidade: Mehdi Taremi é o melhor avançado em campo, Saman Ghoddos liga os setores com inteligência e a estrutura defensiva, com Beiranvand e os centrais veteranos, já provou em edições anteriores do Mundial que sabe sofrer e resistir. Mas este Irão chega longe de estar na sua plenitude. Sardar Azmoun ficou de fora da convocatória, Roozbeh Cheshmi está confirmadamente de fora, e há dúvidas sérias sobre a disponibilidade plena de Taremi, Ghoddos e Mehdi Torabi, todos a gerir pequenas lesões. Jahanbakhsh é outra incógnita. Isto significa que o ataque iraniano pode entrar em campo sem a sua primeira ou segunda linha completa, o que reduz a capacidade de desequilibrar e, sobretudo, de golear.
Além disso, o ambiente à volta da seleção iraniana tem sido tudo menos sereno. A mudança de base para Tijuana, as dificuldades de vistos e a tensão política são fatores que o próprio Taremi admitiu em entrevista: "Senti a tensão desde o primeiro momento em que chegámos a este Mundial". Ghalenoei foi ainda mais direto, dizendo que as condições externas afetaram o "foco técnico" da equipa. Isto não significa que o Irão vá perder, mas sugere que a sua margem de manobra pode ser mais curta do que o esperado.
Nova Zelândia: compacta e motivada
Do outro lado, a Nova Zelândia de Darren Bazeley chega com um discurso pragmático e, mais importante, com um plano credível. O desempenho frente a Inglaterra, há uma semana, foi revelador: os All Whites perderam por 1-0, mas mantiveram-se organizados, competitivos e só cederam num lance de classe de Harry Kane já perto do intervalo. Crocombe fez boas defesas e a equipa mostrou capacidade para sofrer sem se desmoronar. Esse jogo é o modelo tático para este encontro: bloco compacto, transições rápidas e Chris Wood como ponto de fuga e ameaça aérea.
O grande senão é a lesão de Matt Garbett, que se lesinou no treino e é dúvida. Se não jogar, a Nova Zelândia perde um dos seus melhores portadores de bola e remate de fora da área, mas a estrutura defensiva e a entrega coletiva não dependem dele. O mais relevante é que Bazeley já disse que a equipa não veio para passear: "Esperámos muito tempo por isto. Agora temos de atuar". Este é o jogo mais acessível do grupo para os neozelandeses, e a motivação está no pico.
O jogo que se antecipa
A chave tática é saber se o Irão consegue ou não desbloquear o jogo cedo. Se marcar nos primeiros 30 minutos, a Nova Zelândia pode ter de sair mais do seu bloco, e aí o risco de sofrer em transição aumenta. Mas se o Irão demorar a marcar — e com Taremi e Ghoddos em risco físico, isso é plausível — a ansiedade e o desgaste logístico podem nivelar o jogo por baixo. O historial recente dos iranianos mostra uma equipa que vence, mas por margens curtas: 2-0 ao Mali, 3-1 à Gâmbia (depois de estar a perder ao intervalo). Já a Nova Zelândia, mesmo com a goleada sofrida frente ao Haiti (em que a defesa se desfez na segunda parte), mostrou frente a Inglaterra que consegue manter a diferença em um golo.
Por isso, o cenário mais provável é uma vitória do Irão por um golo de diferença (1-0, 2-1), ou até um empate (0-0 ou 1-1). Uma vitória iraniana por dois ou mais golos de margem exigiria uma eficácia ofensiva que o estado físico e emocional da equipa não garante.





