Arranca o Campeonato do Mundo para estas duas grandes nações e o cheiro a drama já paira no ar. Quando a França olha para o Senegal, os fantasmas daquele choque épico de 2002 começam inevitavelmente a bater à porta. Mbappé, Olise e companhia chegam com a corda toda, assumindo o papel de crónicos candidatos ao título, mas este jogo sob o formato de estreia não vai ser um simples passeio no parque. As linhas do mercado estão a contar com uma goleada gaulesa de olhos fechados, como se do outro lado estivesse uma equipa banal. Pura ilusão.
A muralha africana está de regresso
Qual é o grande erro de cálculo das casas de apostas? Estão a olhar fixamente para aquele naufrágio defensivo do Senegal contra os Estados Unidos na fase de preparação. Sofrer três golos e ceder espaço nas costas assusta qualquer um. Mas, meus caros, há um detalhe colossal que está a passar ao lado de muita gente: nesse amigável, faltavam os dois verdadeiros alicerces do balneário e no relvado. E agora? Kalidou Koulibaly e Idrissa Gana Gueye estão plenamente recuperados e prontos a ir a jogo.
A diferença entre ter ou não ter esta dupla é a diferença entre um castelo de cartas e um autêntico forte insuperável. Com a sua espinha dorsal defensiva magicamente restabelecida, a capacidade de choque e de ganhar ressaltos no meio-campo dispara incrivelmente. A equipa orientada por Pape Thiaw tem agressividade, físico e uma vontade doentia de provar que a última desfeita, com as segundas escolhas, foi apenas um acidente de percurso debaixo de rotação intensa.
O fio da navalha de Didier Deschamps
Do outro lado da barricada, Didier Deschamps parece estar apostado em pôr a carne toda no assador com um 4-2-3-1 de pura vertigem. A própria imprensa gaulesa já anda a avisar que esta configuração é um verdadeiro salto no escuro para o equilíbrio da equipa. Com Tchouaméni e Rabiot a tentar segurar sozinhos as pontas enquanto quatro setas ofensivas disparam loucamente para a área, as costas dos laterais ficam totalmente expostas. E é precisamente nas transições rápidas que o perigo mora.
Os franceses já mostraram ao que vêm nos últimos testes: marcaram e entusiasmaram no ataque, mas consentiram golos perfeitamente evitáveis sempre que perderam a concentração. E quando se pensa em deixar buracos na defesa perante um ataque que tem Sadio Mané, Nicolas Jackson e Ismaïla Sarr prontos a engatar a quinta velocidade... é um convite assustador ao desastre. Os Leões da Teranga não vão ficar à espera de levar o golpe; vão morder os calcanhares gauleses e aproveitar cada mísero buraco para castigar a linha defensiva contrária.
A armada francesa acaba por ser ligeiramente favorita pelas individualidades absurdas que tem debaixo da manga. Mas não me venham com a história da tareia certa. O Senegal chega para bater de frente no meio-campo, não para tirar fotografias aos craques franceses. A probabilidade de um atropelamento desenfreado da França é um mito perigoso criado pelo mercado, até porque uma vitória super apertada por margem mínima é um cenário que pode perfeitamente acontecer neste braço de ferro de titãs.





